A fé que move a economia: Weber 1 X 0 Marx

marx-vs-weber

É conhecido no pensamento de Marx o pilar que o sustenta: economia move tudo, inclusive a religião. Para Marx, a economia é determinante; o resto é determinado. No pensador do chamado materialismo dialético, as mãos (literais) e o trabalho são chave para a compreensão de quase tudo no campo sociológico.

Por outro lado, o também alemão Max Weber fez estudos muito profundos da sociedade e é considerado, assim como Marx e Durkheim, um dos pais da sociologia. Não nego, contudo, que Marx tenha sido vulcânico em vários aspectos também.

No caso particular da relação economia e fé, Weber fez um estudo que relaciona a fé protestante calvinista e o capitalismo ocidental, em especial, o americano.

Dessa forma, Weber recolheu dados e argumentou em favor da ideia de que a religião também impulsiona a economia – a tese central de Weber no famoso “A ética protestante e o espírito do capitalismo” é que a teologia social de Calvino, em alguma medida, contribuiu decisivamente para o sucesso da economia de troca ocidental.

Curiosamente, uma reportagem de três páginas do Jornal “O Globo” de domingo 19/6/16 reforça bastante a conclusão weberiana.

Acusando fatos e indicando volume de dinheiro circulante (“Devoção que estimula a economia”), a extensa reportagem mostrou casos concretos no Brasil de como a fé pode mover não só montanhas mas a economia também: centrada nos casos de Aparecida-SP, Juazeiro do Norte-CE, Abadiânia-GO, Palmelo-GO e Trindade-GO, ficou límpido como a economia é afetada pela fé e que a relação rígida imaginada por Marx – a economia determina a religião – não se sustenta no mundo real. Interessante é que, de forma a enriquecer o estudo de Weber, nenhum dos casos listados possui ligação com o protestantismo. Dos cinco casos trazidos pela longa reportagem, dois se referem a catolicismo e três a espiritismo. Vamos aos números.

Em Palmelo, segundo a matéria, o PIB cresceu 247,3% entre 2000 e 2013 – lá, mais de 60% dos 2400 moradores são espíritas. Já em Alexânia/Abadiânia, o médium João Teixeira de Farias, o João de Deus, provocou uma “revolução” no pequeno município de 16.000 habitantes. João de Deus tornou Alexânia cosmopolita. Curiosamente, João de Deus realizou um sincretismo religioso: a casa onde ele atende os turistas chama-se Dom Inácio de Loyola, em alusão ao ex-militar que fundou a famosa e controvertida Companhia de Jesus. Na casa é muito comum ouvir inglês e alemão. Além dos gringos, João de Deus atrai famosos de vários matizes: de Xuxa ao ministro do Supremo Luís Roberto Barroso.

Aparecida do Norte movimenta em seu comércio cerca de R$ 600 milhões. Não é novidade a vocação turística religiosa da cidade-santuário. Segunda maior basílica da Igreja de Roma, atrás apenas da Basílica de São Pedro, a de Aparecida atrai fiéis que podem gastar cerca de mil reais na viagem e dependendo do bolso e do gosto, cerca de 120 reais com almoço e estacionamento. A fé pode mover a economia também.

“Com a economia baseada no turismo, essas cidades têm boa parte do PIB sustentada pelo setor de serviços. Em Aparecida, esse segmento movimenta quase 68% da economia. Em Juazeiro, 59%; em Abadialândia, 42%; e em Trindade, 37%.”.

O trecho acima resume bem a reportagem e ilustra bem como, no caso examinado, a teoria sociológica de Weber suplanta a de Marx, o que me autoriza a mostrar o placar desta “partida”: Weber 1 X 0 Marx.

mpaulojme@gmail.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s