O Carrasco da moral

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Talvez o autor que escreva melhor sobre o politicamente correto no Brasil de hoje seja Luiz Felipe Pondé. Ele abordou o tema diretamente no “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” e voltou fazê-lo no Guia sobre o sexo; neste, porém, focado na moral sexual. E não é que Walcyr Carrasco e a revista Época mais uma vez se superaram no quesito da correção política?

Na edição impressa de 6 de junho, também publicada online, Carrasco assinou sua coluna semanal com o título “A cultura do estupro”. Nela, Carrasco enumera casos que ocorrem na vida nossa do dia-a-dia. Ele ajunta os vários exemplos listados e chega à magnífica conclusão de que existe e é patente a tal da cultura de estupro. Mas o que tem Pondé a ver com isso? Já já eu digo.

A enumeração de Carrasco é a seguinte: 1) os homens são incentivados desde meninos a terem atitudes agressivas com as mulheres, incluindo os famosos gracejos; 2) o estupro às vezes é perpetrado dentro de casa, por pais e irmãos; 3) travestis e transexuais são estuprados também; e 4) Há estupros nas celas de prisão. Estas são as premissas de Carrasco. Será que delas posso partir para a conclusão necessária de que há cultura de estupro?

 A partir desse elenco, Carrrasco vai sutilmente escrevendo a sinopse da novela chamada cultura de estupro e induz sutilmente o leitor à conclusão de que seu folhetim é agradável. Aqui, repito o que disse no meu texto “Boas companhias e cultura de estupro”: este ato sexual abominável tem mais a ver com biologia do que com sociologia. Os casos anunciados por Carrasco parecem apontar para isso e, sobretudo 3) e 4), negam exatamente o que ele pretende sugerir.

Embora assédios e gracejos às mulheres existam de fato, a verdade é que os tais se prestam bem ao charme e ao jogo de sedução sexual existente entre “meninos e meninas”. Acho que quando essas manifestações extrapolam o limite do suficiente para a atração sexual e manutenção da espécie, a correção política pode ser benéfica. Apenas nos casos de excesso. Da forma que a esquerda normalmente os utiliza, o que se dá é o uso da condição de fraqueza e vulnerabilidade de certos grupos (minorias) para benefício político. Nesses casos, o excesso deve ser, obviamente, afastado. Como explica Pondé, qual menina ou mulher não gosta do elogio, do gracejo e da cantada na justa medida?

É verdade também que o estupro às vezes ocorre no seio da família; conheço pessoalmente mulheres que padeceram desse mal quando meninas. Repulsa e dor é o que sinto, porque o adulto que faz isso se vale da vulnerabilidade e de sua posição privilegiada em relação àquela criança ou adolescente: incapacidade de defesa, abuso de confiança, pressão psicológica, etc. Mas daí a querer emplacar a tal da cultura do estupro a distância é grande.

Por outro lado, o estupro de travestis e homens nas celas, apenas reforçam o aspecto hormonal e animal do estupro (mais a ver com biologia do que com sociologia): situações-limite, esporádicas e acidentais e não servem de parâmetro para a maioria dos casos.

Além dessa lógica esquisita e do politicamente correto opressor, Carrasco saiu com essa pérola de vale-tudo sexual: “Uma mulher tem o direito de fazer sexo com quantos homens quiser. Desde que seja consensual.” Será que Carrasco aprovaria tal conduta para uma filha dele? Ou será que ele assinaria em baixo caso uma mulher dele assim pensasse? Bem, em se tratando do Carrasco, tudo pode ser possível, posto que ele se declara bissexual.

Walcyr Carrasco entra no oba-oba da esquerda pedestre do mijaço, cocozaço e depilaço e embarca no trem desgovernado da cultura do estupro e da correção política. Assim, e com a pérola do desbunde sexual feminino listado acima, esse novelista torna-se, sem dúvida, o Carrasco da moral.

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