Olavo é amigo mas mais amiga é a verdade. Ou: sobre Olavo de Carvalho e a inquisição.

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Amicus Plato sed magis amica veritas. Esta é versão latina de suposto brocardo grego atribuído a Aristóteles : “- Platão é amigo mas amiga é a verdade”. Por ele, Aristóteles estaria dando adeus à completa dependência intelectual do mestre Platão. Por ele, cada um de nós não precisa balançar a cabeça para um dito ou doutrina só porque vem de algum cérebro privilegiado; é preciso averiguar os fatos para, aí assim, tê-los por verdadeiros. Como homem de cultura, Aristóteles não desprezaria de todo o legado e o ensino de Platão porém, a partir dali, ele estabeleceria “carreira solo”. Esse brocardo seria o marco da independência intelectual de Aristóteles em face da doutrina platônica.

Tive uma relação com Olavo de Carvalho parecida com a de Aristóteles e Platão. Olavo não me conhece e nem eu o conheço pessoalmente. Mutatis mutandi, Olavo foi meu Platão. Com ele me libertei das garras do marxismo doentio e aprisionador. Isso aconteceu com muitos evangélicos. Já expliquei com algum detalhe como isso se deu aqui. Nesse sentido, Olavo foi meu amigo, contudo meus dias de independência intelectual chegaram também. O sol não brilhou só para Aristóteles. O sol pode brilhar para você também.

Eu não podia, como pastor evangélico, estar submisso à visão espiritual de Olavo. E o olhar religioso dele passa pelo acobertamento do que deveria estar desnudo e pela defesa do indefensável: a “Santa Inquisição”, por exemplo. Olavo se vale de muitos artifícios retóricos e de pseudo conhecimento histórico, fundado em parte na falácia do argumento de autoridade que ele construiu para si mesmo, para advogar em prol do “Tribunal do Santo Ofício”. Um deles é: a Inquisição só acertava as contas com católicos; ela só tinha jurisdição sobre os que criam na Igreja. Verdade parcial que não resiste a um exame histórico mais profundo.

Assista a esse vídeo (9 min 40 seg) em que Olavo comenta sobre Inquisição, protestantismo e judeus. Observe o que ele diz enfaticamente para reforçar sua autoridade e compare com os trechos de ensaio de historiadora especialista no assunto que cito mais à frente. Fica evidente que Olavo de Carvalho nem sempre tem razão. Fique bem atento a partir dos 4min45 até aproximadamente 5min50.

Pois bem. E se pessoas fossem obrigadas a se converter à Roma pela força estatal? Era cruz ou espada! Não havia saída. Não é segredo para quem se interessa pelo tema da Inquisição, que houve conversões forçadas de judeus portugueses ao catolicismo, pois o monarca lusitano não queria perder a força econômica que o judeu representava para o projeto expansionista ultramarino.

Chegou a hora da verdade. Trago agora conhecimento da historiadora Rachel Mizrahi, professora universitária. Os trechos seguintes foram extraídos do ensaio escrito por ela “os judeus na Andaluzia”, parte do livro “Judaísmo – Coleção o sagrado na história”, Ed. Duetto, 2010).

“Em 1497, em vez de expulsá-los[os judeus] de seu reino, d. Manoel decretou a conversão forçada de todos os judeus do reino. Surgiram aí os cristãos novos, conversos ou marranos, nomes dados aos judeus convertidos ao catolicismo, em toda a península ibérica.” (p. 68)

“Disputas políticas e sociais por cargos de poder levaram a que a igreja autorizasse a introdução de tribunais da Inquisição, criados pela Igreja Católica desde o século XIII para julgamento de heresias e comportamentos sociais inadequados. Eles foram instalados nos reinos da Espanha em 1480 e no de Portugal a partir de 1536.

A instituição, transformada em instrumento de poder, iniciou sistemática perseguição aos judeus, ao abrir processos contra seus descendentes cristãos novos.” (p. 69)

Assim como eu no passado, hoje muitos evangélicos tem Olavo por mestre. Por que não transformá-lo em seu Platão também?

A verdade é mais amiga que Olavo! Veja que muitos judeus foram convertidos por coação jurídica e, assim, passaram a ser objeto da autoridade da Inquisição Portuguesa. Veja que Olavo, por ignorância ou ardil, comete grave impropriedade, no afã de defender a qualquer custo a Inquisição.

Se é verdade que a Inquisição não se metia na religião alheia, não é menos verdade que a religião alheia “era metida” à força dentro da Igreja e de sua fogueiras.

Olavo é amigo mas mais amiga é a verdade.

 

e-mail:mpaulojme@gmail.com

twitter: @marcospaulofon2

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5 comentários sobre “Olavo é amigo mas mais amiga é a verdade. Ou: sobre Olavo de Carvalho e a inquisição.

  1. Sou presbiteriano e tenho um sentimento parecido. O Olavo foi de extrema importância na minha “libertação marxista”, assim como o Pe. Paulo Ricardo. Mas como afirmam as sagradas escritura só devemos confiar em Deus. Gostei muito do texto, pois esclareceu bastante o tema.

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