Olavo de Carvalho e Nancy Pearcey: a terceira via evangélica em gestação

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Júlio Severo, no estupendo “A premonição magistral de René Guenon” , atiçou minha curiosidade para um dos apêndices do livro “Verdade Absoluta”, escrito pela estudiosa reformada Nancy Pearcey. Pearcey pertence à boa cepa de analistas protestantes da cultura: Abraham Kuyper, Herman Dooyweerd e Francis Schaefer. Ela é herdeira desses mestres. Segundo Severo, nesse apêndice, Nancy faz menção a René Guenon, mestre de religião admirado por Olavo.

Por outro lado, em artigo de nome “Nem olavete nem comuna: um pouco de mim mesmo. Ou: por uma terceira via para o povo da Bíblia”, fiz referência a certa terceira via intelectual para o evangélico no Brasil de hoje. Não é que estradas para essa via se abriram bem antes do que eu imaginava? Não é que o livro veio parar em minhas mãos?

Tenho me esforçado para mostrar aos evangélicos a relação da obra de Olavo de Carvalho com a chamada filosofia perene. Com esse esforço, não pretendo necessariamente que ninguém deixe de ler Olavo.

Já disse no artigo nominado acima, que continuo acompanhando esse filósofo em virtude de sua importância no cenário político brasileiro atual. Contudo, não devo silenciar sobre o que aprendi acerca de Olavo e suas relações com o ocultismo.

 “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.” (Tiago 4, 17)

Em outro texto “Olavo encontra maçons. E agora, evangélicos?” indiquei algumas fontes de informação sobre esoterismo islâmico (sufismo) e sua conexão com o pensamento de Olavo.

Parece que, depois da abordagem olaviana da realidade, muita gente – como eu – gostaria de ter autores e professores que realizassem a ponte entre a cultura e a fé evangélica. Nunca me imaginei fazendo isso. Não me acho preparado para tal empresa. Na minha cabeça, só há quatro nomes no Brasil de hoje que poderiam liderar os evangélicos nesse êxodo: Franklin Ferreira, Jonas Madureira, Guilherme de Carvalho e talvez Luiz Sayão. Eles fazem isso, de certo modo. Entretanto, em relação ao “problema” Olavo de Carvalho, acho o trabalho deles insuficiente. Dessa forma, vou levando, junto com Julio Severo e minhas limitações, essa obra, que reputo urgente. Principalmente por não considerar Olavo um caminho viável para o evangélico, por força de sua associação com a filosofia perene via catolicismo de Roma.

No capítulo 4 e no memorável apêndice 2 de Verdade Absoluta, Nancy Pearcey toca no assunto do perenialismo, como é também conhecida a filosofia perene. Ainda que de forma incipiente, Pearcey cerca o tema, que não é (pelo menos nunca vi) abordado no meio evangélico. Eu mesmo fiz três anos de seminário e não tenho lembrança de nenhum professor, de nenhuma disciplina, sequer falar em nomes como René Guénon, Fritjof Schuon e Martin Lings ou usar a expressão filosofia perene.

Passo agora a dar voz a Pearcey, autora reconhecida por ser estudiosa das relações entre cristianismo e cultura. Todas as citações foram extraídas de

PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Trad. Luís Aron. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

  1. Definição de Filosofia Perene

“Na realidade, [Alan] watts ensinava que todas as religiões são mera janela cultural que se ajusta a um centro comum de crenças – uma ‘filosofia perene’ -, que considera que tudo é emanação do ser divino. “ (p. 140)

“Em torno da mesma época [início do século XX], foi lançada uma nova mistura de religião oriental e ocultismo ocidental sob o nome de filosofia perene – as mesmas ideias que encontrei em minha adolescência quando li o livro ‘A filosofia perene’, de Aldous Huxley.” (p. 433)

  1. Origens do Perenialismo

“Durante a era dourada do Islamismo nos séculos VII e VIII, os exércitos de Maomé devastara (sic) tudo desde a península Árabe, anexando territórios da Espanha à Pérsia. Com esta ação, poderíamos dizer, eles também anexaram as obras de Platão, Aristóteles, Plotino e outros pensadores gregos. Por conseguinte, o mundo árabe tinha uma rica tradição de comentários sobre os filósofos gregos muito antes que a Europa. Nos cursos universitários de História, aprendemos que o renascimento foi despertado pela recuperação dos antigos escritos clássicos. Mas raramente aprendemos que foram os filósofos muçulmanos que tinham preservado esses documentos e que os reintroduziram no ocidente.” (p.433)

“Hoje, os principais filósofos muçulmanos adotam a filosofia perene, com sua fusão do panteísmo ocidental e oriental. Na realidade, os primeiros proponentes desta filosofia, que eram europeus, acabaram se convertendo ao islamismo! (Entre os grandes proponentes europeus da filosofia perene que se converteram ao islamismo estão René Guenon, Fritjof Schuon e Martin Lings. Hoje, o proponente muçulmano mais bem conhecido da filosofia perene é Sayyed Hossien Nasr). Para completar o círculo, a pessoa que lançou a filosofia perene (um francês chamado René Guenon) acreditava que havia um âmago comum que unia os três: o neoplatonismo, no Ocidente, o hinduísmo, no Oriente, e o islamismo, no Oriente Médio.” (p. 433)

  1. Conexão com Roma

“É surpreendente que muitos dos cristãos primitivos fossem simpatizantes do neoplatonismo e muito influenciados por ele – notavelmente Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho. Ao término do século V, esta filosofia semi-ocidental foi sintetizada com o cristianismo por um escritor desconhecido chamado Dionísio, o Aeropagita…Depois, conhecido por pseudo-Dionísio, ele apresentou uma forma cristianizada de neoplatonismo que ficou bastante influente na Idade Média. Seus escritos foram traduzidos para o latim por João Escoto Erígena em meados do século IX, e desde então o neoplatonismo se tornou o principal canal do pensamento grego para as eras posteriores. Influenciou grandemente movimentos místicos no Ocidente, incluindo os de Meister Eckhart e Jacob Boehme.” (p. 432)

Meus comentários

Veja Olavo indicando, no artigo Luz do Oriente, tudo bem que em 2001, a leitura do maior divulgador atual (2006) da filosofia perene segundo Pearcey:

“Leiam, por exemplo, “Knowledge and the Sacred” ou “Man and Nature” de Seyyed Hossein Nasr, que foi ministro da Cultura do Irã no tempo de Reza Pahlevi. Livros como esses nos trazem de volta, no refluxo da maré histórica deslanchada por uma grande mentira, as verdades que foram traídas e esquecidas no início do processo. “Ex Oriente lux”: a luz vem do Oriente. Pouco importa que tenha sido trazida, de contrabando, na bagagem de ladrões, genocidas e stalinistas. Isso não basta para ofuscá-la. É dela que depende em grande parte, hoje, a reconquista dos ideais ocidentais abandonados pela cultura imanentista dos últimos dois séculos.” (grifo meu)

No facebook, em 2013, Olavo escreveu isso:

“Li TODOS os livros do filósofo iraniano Seyyed Hossein Nasr antes de lhe fazer UMA — exatamente uma — pergunta quando o conheci em Washington D.C. em 1986. Ao filósofo americano David Walsh fiz duas, nas mesmas condições, e ainda lhe paguei um almoço em retribuição. Ao Frithof Schuon, cujas obras eu conhecia praticamente de cor, fiz umas cinco ou seis porque ele mesmo se ofereceu para respondê-las. Se você tem a curiosidade de conhecer meu pensamento, por que não lê os meus livros e faz os meus cursos primeiro antes de me enviar perguntas, para não dizer cobranças? A resposta que você quer pode já estar escrita faz tempo. A curiosidade só é digna de respeito quando busca primeiro sua própria satisfação antes de exigi-la dos outros.” (grifo meu)

Olavo sempre insiste na superioridade intelectual dos perenialistas – ou seja, dos filósofos islâmicos; afinal, foram eles o canal pelo qual a filosofia perene chegou ao Ocidente, mais precisamente à Igreja Romana. Os escolásticos absorvem isso! A religião católica é esse misto e o foi desde o nascedouro no século I com os Pais da Igreja: híbrido de judaísmo e filosofia grega. O “caminho” do Livro de Atos não era o cristianismo dos Pais da Igreja! É curioso um episódio meio esquecido em Atos dos Apóstolos, em que os fabricantes de tendas, Priscila e Áquila, dão um rumo mais exato ao alexandrino Apolo, homem ilustrado:

24 Nesse meio tempo, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras.

25 Era ele instruído no caminho do Senhor; e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava com precisão a respeito de Jesus, conhecendo apenas o batismo de João.

26 Ele, pois, começou a falar ousadamente na sinagoga. Ouvindo-o, porém, Priscila e Áqüila, tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus. (Atos 18, 24-26)

Essa passagem é central para nossos dias, povo da Bíblia! Desde o início da fé messiânica, os alexandrinos precisavam de ajuste. O neoplatonismo foi muito influente em Alexandria. Essa “fé alexandrina” nunca morreu e hoje está aí a nossa frente: mais complexa, mais elaborada, ligada ao perenialismo e a Olavo de Carvalho.

No meu entendimento, se Olavo propusesse apenas a restauração do catolicismo sem o perenialismo, só isso já bastaria para o evangélico rechaçar o programa de ação dele, que é indissociável de sua visão religiosa. A escolástica guarda muita relação com a filosofia perene. Não é à toa que Olavo e seus sites tem promovido reedições de obras de vários desses mestres medievais.

Não esqueça, povo da Bíblia, filosofia perene é ocultismo, é síntese elaborada por homens envolvendo neoplatonismo (Ocidente), hinduísmo (Oriente) e islã (Oriente Médio). Eis o mestre de Olavo, René Guénon, desnudo.

O interesse maior de Olavo, repito, por todas as evidências e pistas colhidas e expostas nos artigos que venho escrevendo, parece ser a filosofia perene. Não há como negar.

Cabe a cada um repensar os caminhos e saber que, se se quer fidelidade ao conteúdo da fé de Jesus, de Paulo e dos demais discípulos e apóstolos, a via alexandrina não deve ser usada como estrada. Hoje, essa via está alargada e com mais artérias (a filosofia perene) e um de seus gestores e mantenedores é, sem dúvida, Olavo de Carvalho.

Encerrando, deixo opinião contrária à tese central da filosofia perene, a do núcleo comum válido entre as religiões, a famosa “unidade transcendente das religiões”, de Schuon. Fala agora o filósofo da religião B. R. Thilgman, que não é evangélico:

“É muito provavelmente um erro supor que haja alguma essência da religião, algum núcleo a ser encontrado em todas as religiões de todas as épocas e lugares. As religiões são muitas e variadas e assumem diferentes formas.” (Introdução à filosofia da religião, Loyola, 1996, p. 194).

Assim sendo, por tudo o que venho mostrando nesses artigos sobre o mestre da Virgínia, penso que é possível construir uma via inteligente que relacione análise cultural e cristianismo bíblico sem a muleta do perenialista Olavo de Carvalho. Não é ainda estrada duplicada e de trânsito livre, mas é via que pode ficar bem sinalizada por mestres que podem servir de baliza, alguns já mortos como Abraham Kuyper, Herman Dooyweerd e Francis Schaefer; outros vivos, como Franklin Ferreira, Jonas Madureira, Guilherme de Carvalho e Luiz Sayão e, claro, a própria Nancy Pearcey.

Penso que seja viável essa via intelectual, a terceira via brasileira evangélica.

 

e-mail: mpaulojme@gmail.com

twitter: @marcospaulofon2

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