O menino e o gorila

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No que talvez tenha sido descuido dos pais ou falha grave na segurança, um garoto de quatro anos rompe uma barreira do zoológico de Cincinnati, EUA, e cai de cerca de quatro metros dentro do poço do gorila Harambe, de 17 anos.

Um primata adulto contra uma criança indefesa. As imagens mostram o símio gigantesco aparentemente “brincando” com o menino. Quem já viu cachorro na melhor das intenções se divertindo com seu filhinho de 2 anos? Se não cuidar, a criança se machuca feio com a “brincadeira” do canino.

Pelas imagens veiculadas, o gorila de 180kg moveu o pirralho com muita força, como um boneco de pano. Pensei no meu Heitor ali. Entendo que a atitude da equipe de analistas do Zoo foi necessária. Sim, necessária: não havia conduta alternativa a ser tomada; tinha que ser do jeito que foi; a vida daquela criança estava em risco. Em sério risco.

Ah, mas os pais foram negligentes! Oh, a segurança do zoológico de Cincinnati falhou. Não sei. Mesmo que os pais tenham errado e que o “parque” tenha sido desidioso, isso importa pouco no caso. Pela angústia que passaram os pais da criança, eles decerto já foram apenados. O menino passa bem.

Quem não passa nada bem é parcela da sociedade americana, mundial talvez. Há notícia de que mais de 174 mil assinaturas se agruparam para repudiar a atitude heroica da polícia do parque onde ocorreu o incidente e pedir que os pais do guri percam a guarda dele e dos outros filhos por negligência.

O fundamento último desse pedido está na cabeça do filósofo Peter Singer, o australiano defensor dos animais. Para Singer, o critério de análise quando o assunto é relação humanos x animais é a tal da senciência: tudo que sente dor é digno de respeito; a presença da dor iguala os seres.  Dor de bicho não é menor que dor de gente. É igual e, por isso mesmo, o tratamento dispensado a animais deve ser o mesmo dispensado a humanos quando o quesito é dor.  Bicho não se maltrata.

Nunca fiz isso e nem aprovo quem o faz. Meus filhos são educados a não proceder assim. De forma parecida, o abate de animais para o consumo humano deve primar pela forma mais indolor possível. Porém, daí a querer defender a vida do gorila em desfavor do perigo a que o pequeno estava exposto é desproporcional. Talvez cabesse algum tipo de reflexão ou espera por parte das equipes de segurança do Zoo se ali no fosso dos gorilas estivesse um adulto humano macho. Talvez.

Se é verdade que a ideia de Singer a respeito da dor não é descabida, não é menos verdade que a situação ali era bem desproporcional. Uma criança humana diante de um gorila adulto e forçudo. O que fazer? Filosofar diante da urgência? Diante da urgência não se elocubra, é preciso agir.

Os ativistas estão indo longe demais. Pena que isso não seja novidade.

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