Vida de cientista: dá pra ser “normal” também?

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O que um blog que se dedica a temas relacionados à Política, Religião, Filosofia e Cotidiano tem a dizer sobre ciência e cientistas?

Bem, no quesito Filosofia, existe a possibilidade de se abordar a atividade científica sob olhar do método e do significado de sua prática. Porém, não é esse meu objetivo aqui.

Li reportagem numa revista desconhecida que achei digna de nota. É a revista “O Globo”, que circula como brinde aos domingos junto com o jornal “O Globo”. Na edição de 8/5/2016, o periódico trouxe matéria sobre o que a revista chamou de o lado B da vida de seis cientistas brasileiros de destaque, todos residentes e atuantes na Cidade Maravilhosa. Será que ainda se usa esse nome pro Rio?

O objetivo da matéria de capa – “Outro Olhar” – é apontar o aspecto pedestre da vida de homens e mulheres de ciência. Cientista também é “normal”?

Foi meu filho mais velho que me indicou a leitura. Gostei tanto que resolvi escrever a respeito. Observei aspectos “religiosos” na matéria e é deles que falo um pouquinho agora. Mas só vou dizer algo sobre dois dos cientistas listados.

A primeira dos seis é a bióloga Sandra Azevedo, que estuda cianobactérias e é especialista em assuntos de mar. Tenho medo de mar. Na cultura judaica bíblica, mar é perigoso e assustador e é portador de má notícia. Recomendo o novo filme sobre a velha Moby Dick (“No Coração do Mar”, EUA, 2015). Sandra coordena laboratório de pesquisa sobre as azulzinhas. No curso da entrevista, a doutora Sandra diz, em estilo de gozação, que tais seres são “o capeta em forma de organismo”, por causa da capacidade de sobrevivência tanto em desertos quanto em águas termais aquecidas a mais de 90 graus. Outro lado “religioso” dela, que em nada lembra brincadeira, é sua dedicação a pessoas – ajudou a minorar efeitos da dor lá na minha terra, PE, quando houve calamidade com água não tratada em São José do Egito e na chamada Tragédia da Hemodiálise. Foi tão calamitosa que ganhou nome próprio. Isso foi na querida Caruaru em 1996. Nas horas vagas, a doutora Sandra, ou melhor, a vovó Sandra, se dedica a preparar massas apetecíveis. É… Parece que dá pra ser cientista e “normal” ao mesmo tempo. Aliás, no prazer gustativo, ela não está só. Carlos Aragão a acompanha.

Físico teórico especialista em metamateriais, Aragão também é chegado à boa mesa. Aprecia estar com pessoas, guarnecido por comida e bebida bem preparadas. Ao contrário da área da física em que se tornou expert, Aragão gosta das coisas simples da vida. Vejo “normalidade” por aqui também. Se a Mecânica Quântica chega a níveis de abstração e enquadramento da realidade que atrai religiosos para perto de si, como Jean Guiton, a ponto de eu me arriscar a chamá-la de física espiritual, a física de metamateriais envolve “coisas em escala mínima que se comportam loucamente, mais que o normal no mundo quântico, onde tudo é louco”, diz o jornalista que assina a matéria. Isto é, Carlos Aragão mexe com física mais abstrata que a quântica. Talvez por isso ele não dispense estar sempre perto de gente e de iguarias que a vida dá.

Dos seis cientistas que a revista noticiou, achei que Sandra e Aragão formam os contrastes mais interessantes entre, de um lado, o cientista sisudo, de jaleco branco, imerso no laboratório com pipetas e microscópios e, de outro, o comum dos mortais do dia-a-dia. Quem tem essa revista e não leu a reportagem, vale à pena passar uma vista. Os seis cientistas mostram bem que dá sim, por incrível que pareça, para ser nerd e “normal” ao mesmo tempo. E que vida de cientista não é tão incomum quanto aparenta.

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