Nem olavete nem comuna: um pouco de mim mesmo. Ou: por uma terceira via para o povo da Bíblia

3 via

Inicio com Kant.

“O esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade auto-imposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de um outro. Esta menoridade é auto-imposta quando a causa da mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere aude![ouse saber; atreva-se a saber] Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento! Este é o mote do Esclarecimento.”

(In: Danilo Marcondes, Textos básicos de Ética, Zahar, 2008, p. 88)

Isso não significa que sou kantiano nem que desconheço os efeitos da obra de Kant sobre a religião e a fé – a consolidação do ceticismo. Não. Atenho-me apenas à excelente explicação que Kant deu a um pastor que perguntou a ele o que era esclarecimento ou iluminismo. Isso foi em 1784. Foi para mim que Kant escreveu também.

Que opção resta hoje, no Brasil, para quem se desencantou com a “religião” de Olavo de Carvalho e não pertence à “religião” comunista/socialista?

Fui olavete, confesso. Porém, nunca me matriculei no Curso dele. Devo ter uma senha e login, mas efetivamente nunca fui aluno do COF.

Deixei de ser olavete depois de assistir a várias aulas e palestras no YouTube sobre origens do catolicismo romano, esoterismo islâmico e suas relações com a Roma religiosa (Walter Veith, Caio Rossi e a série “Conheça Seu Inimigo”). A partir daí, como evangélico e como pastor, considerei abandonar a seita olaviana sem nunca ter entrado oficialmente nela.

O ponto de inflexão veio com os artigos de Olavo de julho do ano passado: A Igreja humilhada I e II, nos quais ele deixa claro que só o perenialismo de Guénon e Schuon possuem capacidade para salvar o cristianismo do fisicalismo moderno. Não é mais Javé que luta por seu povo.

Eu não conseguia mais pensar por mim. Tornei-me autômato – o que Olavo dizia, eu dizia; o que ele pensava, eu pensava. Percebi, antes mesmo da crise provocada pelos artigos Igreja humilhada I e II, que eu perdera o senso crítico. Se Olavo dissesse para eu abandonar Jesus, eu abandonaria. Bastava ele dizer, não precisava ele demonstrar nada.

Eu estava prostrado diante de Olavo: minha mente estava anulada.

Por outro lado, não sou comunista. Fui na juventude, por breve tempo, militante no movimento universitário. Compus chapa multicultural para concorrer à eleição de DCE. Passou rápido. Hoje, sou crítico das esquerdas em geral e este blog tem tônus conservador, porém não posso deixar de me render a duas evidências.

Primeira. Olavo, além do traço esotérico e ocultista que exibe, usa muito de técnicas de persuasão em nada recomendáveis: estilo agressivo, autoelogios infindáveis, palavrões, para ficar somente em três. De algum forma, Ele manipula com a linguagem. Defende o indefensável, como a “Santa Inquisição”, por exemplo. Enfim, Olavo pra mim, não dá mais!

Segunda. A prisão marxista. Marx e seus seguidores fazem referência a vários elementos presentes na Lei de Deus e nos Profetas que não podem ser negligenciadas por ninguém – mesmo que o movimento marxista faça uso abundante deles. O Deus da Bíblia se preocupa com os desfavorecidos, não há como evitar, embora isso esteja na boca das esquerdas. Temos que trazer isso pras nossas bocas e pra nossa pele. Preciso encarnar a diaconia.

O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito.
A nenhuma viúva nem órfão afligireis. (Êxodo 22:21,22)

Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como um usurário; não lhe imporeis usura. (Êxodo 22:25)

Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. (Isaías 1:17)

Libertar as prescrições sociais do Senhor da prisão marxista em que ela se encontra sem se seduzir pela vetusta teologia da libertação nem pela Lolita chamada missão integral. Tampouco aquiescer ao liberalismo exagerado de Olavo e de seus seguidores. Nada disso se encaixa na ética bíblica, embora o Decálogo proteja a propriedade privada.

Ao final de tudo, convido você, que pertence ao povo da Bíblia, a refletir se você não tem sido submisso ao pensamento de Olavo como eu fui.

Repito minha pergunta inicial.

Que opção resta hoje, no Brasil, para quem se desencantou com a “religião” de Olavo de Carvalho e não pertence à “religião” comunista/socialista?

Como e o que fazer para que uma via intelectual viável e consistente se abra para o evangélico no Brasil de hoje?

Não tenho essa resposta ainda.

Encerro com Kant.

“O esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade auto-imposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de um outro. Esta menoridade é auto-imposta quando a causa da mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere aude![ouse saber; atreva-se a saber] Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento! Este é o mote do Esclarecimento.”

mpaulojme@gmail.com

twitter:marcospaulofon2

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8 comentários sobre “Nem olavete nem comuna: um pouco de mim mesmo. Ou: por uma terceira via para o povo da Bíblia

  1. Penso que devemos examinar tudo e reter o que for bom, como Jesus recomendou. Olavo em muitas coisas foi bom a nós, mas em muitas pecou e peca por seus exageros.

    A máxima do fundador do cristianismo deve valer em todos os estágios das nossas vidas. O problema dos olavetes está em não avaliar se tudo o que ele prega procede, como se ele fosse um anjo de luz que em nada erra sendo, portanto, digno de toda fé.

    Ademais, considero importantíssimo o que afirmou R. Scruton em uma recente entrevista acerca dos povos latinos: ” Eu acho que seria bom para a América Latina cultivar a regra da lei, e não a regra de uma pessoa, uma família ou uma ideia.”

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    1. Interessante sua citação de Scruton. Obrigado pela visita. Na verdade, Jesus não fundou o cristianismo; ele era judeu e morreu como tal. O cristianismo como o conhecemos hoje, tem mais a ver com os Pais da Igreja do que com Jesus e os discípulos dele. Abraço.

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      1. Devo corrigir que a máxima “Examinai tudo. Retei o que for bom” não veio de Cristo e sim do Ap. Paulo. No entanto, a sua resposta me chamou atenção quando disse que Jesus não é o fundador do Cristianismo. Posso até compreender que a religião vivida hoje não é semelhante aos seus primeiros anos, porém, não consigo entender sua afirmação. Se Cristo não fundou, então quem o fez? O citado Ap. Paulo (há quem diga que sem ele esta religião não teria prosperado)?

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      2. Saulo contribuiu para a disseminação da Fé de Israel pelo mundo mediterrânico a partir da experiência dele com o Messias. Ele não fundou o Cristianismo. Essa religião como a temos hoje é obra dos Pais da igreja, principalmente Inácio de Antioquia e Tertuliano com a sistematização da Trindade, na qual nem Jesus nem Saulo nem nenhum outro discípulo daquela época acreditava. No meu artigo sobre Olavo e Nancy Pearcey toco de leve nesse tema. Se quiser mais detalhes, me envie um mail. Abraço. Obrigado.

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  2. Perdoe a intromissão. O colega postou um pensamento de Danilo Marcones. Estou em dúvidas acerca de adquirir ou não seus escritos. E me parece que há um curso bem completo na Amazon. Se, porventura, o nobre colega já teve contato com sua obra, fica minha indagação: é uma boa e confiável fonte de leitura filosófica???

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    1. Obrigado pela visita. O valor da obra de Danilo é mais para os iniciantes, principalmente porque ele põe o calouro em contato com os próprios filósofos. Contudo, pode ser também boa oportunidade para o que, não sendo novato na Filosofia, queira um contato panorâmico com textos dos pensadores. Boa leitura. Recomendo o Danilo, sim.

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