Tocha Olímpica, bombas em hospital, tristeza e felicidade

triateza alegria

No mundo de gente grande, feita de sangue e nervos, vive-se de tristeza e felicidade. Ora uma, ora outra.

Em “Condições Normais de Temperatura e Pressão”, a chegada da Pira Olímpica no país sede dos jogos, seria episódio de alegria, júbilo, festa, carnaval, etc.

No Brasil de 2016, porém, a percepção de alguns é outra. Infestado por doenças contagiosas letais, cheio de nativos poderosos envolvidos em crimes com dinheiro alheio, vivendo crise econômica, social e política elevada à enésima potência, a vinda da Tocha foi motivo de tristeza e desânimo para muitos. Desde o discurso presidencial até as diversas manifestações nas redes sociais, fica visível a tristeza. Eis o mundo real, onde a vida dói e onde gente sofre.

Mais longe, lá na Síria, em menos de 48 horas, bombas atingem hospitais e clínicas na já combalida cidade de Allepo. Efeito do mundo real conectado: acontece a quilômetros mas eu logo fico sabendo; as redes que veiculam alegria veiculam tristeza também. É da vida, ora uma, ora outra. O local da recuperação da paz, o local do silêncio, o local que é sinônimo do bem receber – hospitalidade – transforma-se no inverso. Até morte de pediatra teve.

Sou Técnico em Enfermagem. Atuei 12 anos seguidos em hospital. Fico imaginando a impossibilidade de limpar o doente, de esterilizar material, de realizar procedimento em campo estéril. Em vez disso, pó, sujidade, contaminação. Tristeza e horror no lugar que gera muita alegria e felicidade (quando se recupera a saúde).

Em contraste com o mundo tecnológico e de links está o mundo antigo e isolado, com sérias dificuldades de comunicação à distância. Me veio à memória a canção judaica que faz poesia com o episódio da chamada “amarração de Isaac” (termo mais preciso, visto que não houve sacrifício segundo a Bíblia). A história é bem conhecida. Muito já se escreveu sobre ela, inclusive filósofos (Kierkegaard). O interessante é que, na canção, sobressai a tônica do observador mais realista – nem o tom ácido e pessimista do crítico destrutivo, nem o triunfalismo ingênuo do crente desavisado. O que houve em Moriá, diz o canto, foi tristeza e alegria. Tristeza, pois um pai iria assassinar um filho a mando de Deus; alegria, porque o mesmo Deus salva esse filho.

Não resta dúvida de que a presença da Pira em nosso meio traz alegria. Porém, pela circunstância nacional de hoje, é alegria chocha e borocoxô. Por outro lado, um pouco de realismo não faz mal a ninguém, como na percepção judaica do evento de Moriá. De toda forma, eis o mundo real, conectado ou isolado, com Pira ou sem Pira, com bomba em hospital, eis o mundo da tristeza e da alegria. Eu prefiro alegria.

Alegria pra você!

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2 comentários sobre “Tocha Olímpica, bombas em hospital, tristeza e felicidade

  1. Pura realidade, gostei muito do texto. Normalmente estaríamos eufóricos e entusiasmados pela proximidade dos jogos olímpicos, entretanto estamos perplexos com a situação politica deplorável do no país. Realmente, ora alegre, ora triste.

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