O menino e o gorila

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No que talvez tenha sido descuido dos pais ou falha grave na segurança, um garoto de quatro anos rompe uma barreira do zoológico de Cincinnati, EUA, e cai de cerca de quatro metros dentro do poço do gorila Harambe, de 17 anos.

Um primata adulto contra uma criança indefesa. As imagens mostram o símio gigantesco aparentemente “brincando” com o menino. Quem já viu cachorro na melhor das intenções se divertindo com seu filhinho de 2 anos? Se não cuidar, a criança se machuca feio com a “brincadeira” do canino.

Pelas imagens veiculadas, o gorila de 180kg moveu o pirralho com muita força, como um boneco de pano. Pensei no meu Heitor ali. Entendo que a atitude da equipe de analistas do Zoo foi necessária. Sim, necessária: não havia conduta alternativa a ser tomada; tinha que ser do jeito que foi; a vida daquela criança estava em risco. Em sério risco.

Ah, mas os pais foram negligentes! Oh, a segurança do zoológico de Cincinnati falhou. Não sei. Mesmo que os pais tenham errado e que o “parque” tenha sido desidioso, isso importa pouco no caso. Pela angústia que passaram os pais da criança, eles decerto já foram apenados. O menino passa bem.

Quem não passa nada bem é parcela da sociedade americana, mundial talvez. Há notícia de que mais de 174 mil assinaturas se agruparam para repudiar a atitude heroica da polícia do parque onde ocorreu o incidente e pedir que os pais do guri percam a guarda dele e dos outros filhos por negligência.

O fundamento último desse pedido está na cabeça do filósofo Peter Singer, o australiano defensor dos animais. Para Singer, o critério de análise quando o assunto é relação humanos x animais é a tal da senciência: tudo que sente dor é digno de respeito; a presença da dor iguala os seres.  Dor de bicho não é menor que dor de gente. É igual e, por isso mesmo, o tratamento dispensado a animais deve ser o mesmo dispensado a humanos quando o quesito é dor.  Bicho não se maltrata.

Nunca fiz isso e nem aprovo quem o faz. Meus filhos são educados a não proceder assim. De forma parecida, o abate de animais para o consumo humano deve primar pela forma mais indolor possível. Porém, daí a querer defender a vida do gorila em desfavor do perigo a que o pequeno estava exposto é desproporcional. Talvez cabesse algum tipo de reflexão ou espera por parte das equipes de segurança do Zoo se ali no fosso dos gorilas estivesse um adulto humano macho. Talvez.

Se é verdade que a ideia de Singer a respeito da dor não é descabida, não é menos verdade que a situação ali era bem desproporcional. Uma criança humana diante de um gorila adulto e forçudo. O que fazer? Filosofar diante da urgência? Diante da urgência não se elocubra, é preciso agir.

Os ativistas estão indo longe demais. Pena que isso não seja novidade.

Boas companhias e cultura do estupro

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Quem não quer andar bem acompanhado? Boa companhia cai bem. Amigo de verdade não é fácil de se ter e muito menos se encontra em qualquer esquina, como placa de aluguel em tempos de retração econômica. A namorada bonita e doce é desejada por qualquer um e o moço cortês e inteligente é sonho de muitas meninas.

Há uns vinte anos tive uma colega na faculdade de Economia que toda segunda ia pro cinema com o pai e com os irmãos. Era uma sessão de arte no antigo Cine Veneza na famosa Rua do Hospício, lá na Veneza do Brasil. “Que hábito estranho, pensei. Como é que ela ia pro cinema toda semana com o pai? Que coisa sem graça.” O fato é que ela os tinha por excelente companhia. Engraçado é que hoje tenho muita satisfação em ir ao cinema com minha prole.

Em nítido contraste com a minha colega “esquisita”, a menor estuprada pelos 33, não estava bem acompanhada. A tal da “cultura do estupro” parece ser mais uma insinuação boboca de inspiração marxista, embora eu reconheça que algo da obra de Marx seja útil para análise de certos aspectos da vida em sociedade. Para o barbudo, o “social” tem prioridade na explicação dos fatos. Muita prioridade.

Penso que, na verdade, estupro tem muito mais a ver com biologia do que com sociologia, apesar de terem pontos de intersecção. “Cultura de estupro” passa a ideia de que violações sexuais se resolvem apenas com reeducação de seres assexuados construídos socialmente. Não, antes de serem construídos socialmente eles são machos. Homens estupram homens nos presídios, noticia-se.

Sobre o estupro coletivo, desconfio que não há palavra em língua portuguesa que nomine e adjetive com precisão os 33: crápulas, canalhas, monstros, bárbaros…nenhuma delas sozinha me satisfaz, nem todas juntas. Por isso me refiro a eles como os 33. Mas há algo importante que já vem sendo insinuado por alguns, como Lobão.

Embora Lobão tenha falhado na lógica ao estabelecer relação necessária entre roupa curta e estupro (quem mandou usar tuite para expor assunto complexo?), ele acena para algo interessante que contribuiu para o episódio dos 33. A cultura do Baile Funk à Carioca, regado a bebidas, drogas e sacanagem sexual – a pegação das “novinhas”, por exemplo – é algo que deve ser revisto por muita gente, inclusive pela Rede Globo e os Esquentas da vida. Acho que tem a ver. Isso sim está bem mais inserido no domínio da cultura.

A responsabilidade da jovem é ter escolhido estar mal acompanhada. Os criminosos são os 33, não foi ela que cometeu crime. Penso que ela e a família falharam mas em outro domínio.

Por outro lado, lembrei de passagem da Torá cujo ponto principal é justamente a boa companhia. Aparece nos versículos 29 a 34 do Capítulo 10 de Números.  Ali, Moisés insiste que certo guia do povo de Deus até aquele ponto da marcha, continue com Israel no restante do caminho. Curioso é que o guia recusa prosseguir e estar na companhia de Israel porque ele queria voltar à terra de origem e encontrar a família dele. O guia ansiava pela boa companhia da família. Baile Funk à carioca não promove família acolhedora, aliás não promove família nenhuma. O certo é que o guia escolheu o bom mas perdeu o melhor . Disse Moisés ao guia:

“Vem conosco e te faremos o bem, porque o Eterno falou que traria o bem sobre Israel.”

“E se vieres conosco, nós faremos contigo o mesmo bem que o eterno fizer conosco, e te beneficiaremos.”

É certo que o deserto possui perigos de morte. Porém, quem está com Israel está em boa companhia, diz a Torá.

Isso pode valer também para o cristão, pois Saulo parece confirmar essa ideia, ao escrever para os gentios de Roma que se uniram à Fe de Israel mediante o testemunho do seu messias:

“Entretanto, se alguns ramos foram quebrados, e você – uma oliveira brava – foi enxertado entre eles e se tornou co-participante da rica raiz da oliveira, então não se glorie como se fosse melhor do que os ramos! Contudo, se o fizer, lembre-se de que não é você que sustenta a raiz, mas a raiz que o mantém.” (Romanos 11, 17.18)

Boa companhia não tem igual. É top, é agradável, é instrutivo, faz bem ao coração, faz bem pra vida. Pai, mãe, bons irmãos, amigos, amores de verdade ainda que tenham passado, Israel. Tudo isso é maravilhoso.

Triste é o caso da jovem que talvez nunca tenha experimentado dessas iguarias e que teve o infortúnio de cair na jaula do leão; não na jaula da suposta “cultura do estupro” mas na masmorra do Funk à Carioca e dos 33.

 

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Olavo de Carvalho e Teologia da Libertação

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Segundo Olavo de Carvalho, num vídeo de 2015 no Youtube, Nikita Kruschev, o sucessor de Stalin na União Soviética, foi o autor do termo Teologia da Libertação e, conforme entendi, foi o formulador da própria teologia em si. Assista (5 min 20s).

Curiosamente, em vídeo de 2013, o mesmo Olavo ensina que a origem dessa teologia é o padre jesuíta Gustavo Gutierrez. Assista (5min 45s).

Qual Olavo tem razão, o Olavo de 2013 ou o Olavo de 2015?

Num artigo de janeiro de 2015, Olavo insistiu que a Teologia da Libertação, na verdade, é fruto do trabalho sombrio da KGB. No último parágrafo do artigo ele ensinou assim:

“Ou seja, em suas linhas essenciais, a idéia da TL veio pronta de Moscou três anos antes de que o jesuíta peruano Gustavo Gutierrez, com o livro Teología de la Liberación (Lima, Centro de Estudios y Publicaciones, 1971), se apresentasse como seu inventor original, decerto com a aprovação de seus verdadeiros criadores, que não tinham o menor interesse num reconhecimento público de paternidade.” (Um cadáver no poder I, 15/1/2015)

É bem verdade que não se deve cair no erro rasteiro de pensar que a Teologia da Libertação é produto da mente de Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Juan Luis Segundo, Frei Betto ou até mesmo, como advogam alguns, do ex-pastor Rubem Alves. Não, eles são apenas competentes divulgadores dessa teologia. Eles estão para ela como Voltaire e Diderot estão para as ideias iluministas.

Será Nikita Kruschev o autor direto da Teologia da Libertação ou apenas o chefe administrativo de sua difusão pela América Latina?

Bem, o historiador do Comunismo, autor de “O Comunismo” e de “História Concisa da Revolução Russa”, Richard Pipes, traz informação que lança óbice sobre parte da tese de Olavo de Carvalho segundo a qual a Teologia da libertação nasce de Kruschev. Veja o que ensina Pipes sobre a compreensão que Kruschev tinha do Comunismo:

“ ‘Desde o meu tempo de estudante, tentara e não conseguira compreender exatamente o que era o comunismo(…) Tinha tentado fazer com que o meu pai lançasse uma luz sobre a natureza do comunismo, mas não obtive nenhuma resposta inteligível. Percebi que tampouco a sua compreensão era tão clara a respeito.’

Se o líder do bloco comunista e arauto incansável de seu triunfo futuro por todo o mundo não conseguiu explicar a seu filho o que era o comunismo o que se pode esperar da compreensão teórica das pessoas comuns?” (O Comunismo, Bibliex/Objetiva, 2014, p.134)

Imagine se um homem que sequer entendia bem o que era o comunismo teria capacidade para criar uma teologia, como Olavo parece deixar nas entrelinhas do vídeo de 2015? Para criar a Teologia da Libertação seria preciso mais do que uma noção vaga e imprecisa da doutrina comunista; antes, seria necessário que o postulante a criador dessa teologia detivesse sólido conhecimento tanto de marxismo quanto da letra da Escritura. Que intelectual ou corporação poderia reunir tal síntese?

O autor intelectual dessa teologia foi Gutierrez ou foi a KGB?

Pista extraída do livro “Os jesuítas – A companhia de Jesus e a traição à Igreja Católica”, publicado pela Record em 1989, escrito pelo ex-jesuíta Malachi Martin, aponta boa direção para aonde seguir a fim de saber quem são os verdadeiros criadores da Teologia da Libertação. Ela não nasce de nenhum ventre em Moscou; ela surge das entranhas de Roma.

“Sem um gigante como Karl Rahner é de se duvidar que a Teologia da Libertação fosse conseguir muito mais do que rachar, oscilar e despencar;” (p. 21)

A teologia que Olavo de Carvalho abomina e cuja parturição joga no útero de Moscou, vem exatamente da Roma religiosa. Ela tem origem em gabinetes de homens que pertenciam ao estudo, de mentes que conheciam bem o marxismo e as Escrituras; essa teologia provém da mesma ordem religiosa a que pertence o papa Francisco. Embora Gustavo Gutierrez tenha sido jesuíta, ele não é o mentor intelectual da Teologia da Libertação. Nesse quesito, três nomes aparecem com força: George Tyrrel, Teilhard de Chardin e Jacques Maritain.

Toda informação que trago à frente é de Malachi Martin, autor que Olavo admira e vez ou outra aparece na boca dele. O livro é o mesmo indicado antes.

“George Tyrrel nasceu na Irlanda, de pais ingleses, em 1861” (p. 247)

“Muitos dos destacados teólogos e bispos da igreja de hoje deveriam poder reconhecer em George Tyrrel um verdadeiro ancestral seu. Os entusiastas da Teologia da Libertação como o padre jesuíta Gustavo Gutierrez e Juan Luis Segundo estão seguindo o exemplo de Tyrrel na sua insistência de que a teologia não deve vir ‘de cima’ – da Igreja hierárquica – mas de baixo – do ‘povo de Deus’” (p.254)

Teilhard, como costumava ser chamado, nasceu na França vinte anos depois de George Tyrrel, em maio de 1881” (p. 259)

“‘Para Teilhard, o marxismo não apresentava dificuldade alguma. ‘O Deus cristão lá no alto, escreveu ele, e o Deus do Progresso marxista estão reconciliados em Cristo.’ Não admira que Teilhard de Chardin seja o único escritor católico-romano cujas obras estão expostas ao público junto às de Marx e Lenin no Salão do Ateísmo em Moscou” (p. 263)

“ A Teologia da Libertação – defendida em grande parte por jesuítas latino-americanos – fornecia um objetivo tangível para as novas teorias de Pierre Teilhard de Chardin, SJ…” (p. 274)

“Na esteira do impressionante trabalho de Teilhard na década de 1920…surgiu outro francês na década de 1930 – o filósofo católico Jacques Maritain…[que] codificou o chamamento humanista da fraternidade à Igreja Católica Romana para que se identificasse com as aspirações revolucionárias das esforçadas massas da humanidade.” (p. 276)

“A esquerda política, para Maritain, representava tudo o que era da maior significação do ponto de vista histórico. De fato, Maritain adotou uma espécie de teologia da história, como se poderia chamá-la, baseada na filosofia marxista: a verdade religiosa se encontrava exclusivamente nas massas do povo.” (p. 277)

“Apesar de tudo, é muito mais correto dizer que a América Latina serviu de laboratório vivo para as experiências com a as várias teorias e fórmulas que se reuniam sob o nome de Teologia da Libertação; que a inspiração da Teologia da Libertação, sua fórmula primordial, e seus principais defensores eram todos europeus.” (p. 279)

“Em essência, a Teologia da Libertação é a resposta àquele chamamento dirigido à Igreja codificado tantos anos antes por Maritain.” (p. 279)

Apreciação final

É inegável que o sistema político de Moscou teve envolvimento com a “exportação” do comunismo mundo afora e na América Latina em particular. Pipes trata disso no livro que mencionei aqui.

Para Olavo, o autor da Teologia da Libertação é Gustavo Gutierrez ou Nikita Kruschev/KGB?

Qual Olavo tem razão, o Olavo de 2013 ou o Olavo de 2015?

 Fico com a impressão de que Olavo na verdade quer desviar o foco do problema central: Roma é a autora da Teologia da Libertação, não Moscou. É a velha história de culpar o mensageiro pela mensagem ou do marido traído pela esposa no sofá que vende o sofá e deixa tudo como antes.

Por tudo o que foi visto em Malachi Martin, a Teologia da Libertação é sem dúvida uma construção intelectual de jesuítas. A Teologia da Libertação é um projeto romano, embora tenha recebido anátema papal e tudo o mais. Ela sai da matriz romana, especificamente de Tyrrel, Chardin e Maritain, todos católicos, todos jesuítas. Moscou foi vetor de propagação dessa teologia, mas definitivamente não é a mãe da criança. A genitora é a própria Igreja Católica Romana, que Olavo quer restaurar. Relembro. Os jesuítas estão no “trono de Pedro”. Eles chegaram lá.

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Ser antipetista não é ser conservador: o caso de Romero Jucá

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As conversas cinzentas que o jornal Folha de São Paulo revelou acerca de Romero Jucá servem de ilustração para este artigo, que eu esboçara dias atrás. Muita empolgação se tem visto na boca de alguns conservadores sobre o impeachment de Dilma e a assunção do presidente Temer. É verdade que já se está diante de outro tipo de chefe de governo e de Estado, porém só o curso do tempo mostrará se o presidente de hoje é um estadista. Só. Não vejo motivo para tanta empolgação.

Ele é o vice dela; é aliado de já algum tempo. Apesar de ter reduzido ministérios e sinalizar certa racionalidade administrativa, no primeiro escalão do novo governo aparecem nomes desgastados na cena pública. Muitos deles frequentam o Palácio da Alvorada desde o mandato de Fernando Henrique. Outros, além de Jucá, estão sob os fuzis da Lava Jato. Trata-se de um novo governo; não de um governo novo.

Henrique Meirelles e José Serra, embora polidos e de bom conhecimento técnico tem alma tucana; Helder Barbalho é filho de Jader Barbalho;  Sarney filho, filho de José Sarney, além dos antigos ministros Raul Jungman, Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha.

São todos velhos conhecidos da Política nacional.

Embora a grita da esquerda petista e dos asseclas seja constante e pareça indicar que o governo Temer é um monstro conservador, isso não procede. É apenas um novo governo, não um governo novo. A recriação do Ministério da Cultura indica isso; o caso Jucá mostra isso. Não obstante seja esquerda mais soft, o novo governo é esquerda também.

Ninguém se engane (escrevo o óbvio): ser antipetista não é ser conservador. As organizações Globo, por exemplo, têm apontado com firmeza os erros administrativos e os crimes do PT, mas elas permanecem esquerdistas e talvez até fãs do “PT ideal” dos anos 80 e 90.

De acordo com a resolução que tomei no início do ano, leio toda semana a revista Época e o jornal o Globo. Tais mídias têm algo em comum além de pertenceram ao mesmo grupo empresarial. Ambos dedicam extensas – e intensas – reportagens expondo a nudez dos desmandos e dos descalabros petistas. Ou seja, são antipetistas – ou estão antipetistas. Mas não são mídias conservadoras. Elas mantém em seu plantel de articulistas e formadores de opinião verdadeiros craques da forma vermelha de pensar e contumazes defensores das bandeiras progressistas. No jornal, Luís Fernando Veríssimo e Cacá Diegues; na revista, Walcyr Carrasco e Eugênio Bucci. Não são os únicos.  Às vezes, Bucci também aparece no jornal. Todos escrevem muito bem e seduzem pela prosa. Mas, sutilmente, mostram às claras a face progressista das Organizações Globo. Quer mais? Na edição de 16/5/2016, Época consultou não dois políticos sobre prognósticos para o governo Temer. Época entrevistou dois luminares do pensamento de esquerda no Brasil: Marcos Nobre e Renato Janine Ribeiro.

Repito. Ninguém se engane. O novo governo é também de esquerda, mais sutil e mais light, e não é tão diferente em essência do anterior (veja o caso de Romero Jucá). Finalizo dizendo que ser antipetista não é ser conservador. “Globeleza” que o diga.

 

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Ele não cansa: Eugênio Bucci é advogado do PT

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Mais uma vez Eugênio Bucci sai em defesa do PT. E com todas as letras. Ele não tergiversou e nem agiu às escondidas. Se ele não fosse professor de Comunicação da USP, daria um bom causídico. Pelo menos do PT.

Bucci assina coluna quinzenal na Época de papel, que é publicada também no blog da revista. Em “Tomara que o PT sobreviva – e se renove (Época, 16/5/2016) Bucci se superou. Sempre elegante e polido, o patrocínio de Bucci da causa petista tem um ponto central que pode ser descrito assim: sem o PT, a democracia brasileira ficará manca. Por favor, Bucci, não violente minha inteligência.

Ele insiste novamente em falácia, como já apontei anteriormente. De novo, ele toma o PT como a própria esquerda e insinua que este partido é uma espécie de sustentáculo da democracia brasileira. Diz o professor:

“Quem sonha com um quadro partidário sem a estrela vermelha está sonhando com uma democracia amputada, que nega a si mesma, que cultiva uma autoimagem falsificada.”

PT como messias e salvador da política nacional? É piada.

Prossegue o ilustre:

“Se ele fenecer, vai ficar faltando um pedaço. Outras agremiações de esquerda não darão conta de ocupar o vazio.”

Quem disse que não? Como Bucci pode saber disso? Eis a falácia conhecida por “ladeira escorregadia”, pela qual se lança manobra para se tocar em assunto diverso do que está em foco. É diversionismo. Hipótese aterradora é lançada para que se fuja do tema em foco e aí se vai ladeira abaixo com assuntos que nada tem a ver com o principal.

Bucci deixa no ar a velha tese de que o projeto marxista como um todo não é péssimo em si mesmo; apenas sofreu desvios de finalidade que fez com que esse programa não cumprisse adequadamente os fins “nobres” do movimento. O historiador do comunismo Richard Pipes é de opinião contrária. Ele, no livro-resumo “O comunismo”, entende que a efetivação das medidas comunistas não foram levadas a cabo por desvio dos objetivos do programa traçado no Manifesto, de 1848, mas por cumprimento deles.

Ademais, há um fato interessante que Bucci parece ignorar ou finge não saber. Tenho dificuldade em supor que um professor universitário que escreve sobre política, sobretudo porque escreve à esquerda, não saiba que o PT dos sonhos dele, o PT dos anos 80, ainda tem muitos seguidores de Gramsci. E que Grasmci não era democrata, como aponta James Joll no livreto “As ideias de Gramsci”. Grasmci entendia a democracia liberal e a disputa eleitoral como etapas que ajudavam o partido a conquistar a hegemonia na sociedade e a fazer raiar o dia comunista entre todos.

Além disso, o mea culpa petista pelas lambanças que praticou no Brasil foi de lamento. Conforme noticiou Eliane Cantanhêde, O PT democrático de Bucci lamentou não ter, traduzo assim, instrumentalizado Polícia Federal, Ministério Público Federal e nem ter modificado currículos nas academias militares. Partido gramscista sim; partido antidemocrático sim.

Desse jeito, não é possível levar a sério o desejo de conto de fada para primeira infância expresso por Bucci em sua coluna, pois ele omite o caráter instrumental da “eleição burguesa” tanto para Gramsci como para o PT e usa da inocente presunção de que a democracia brasileira ficará ferida de morte e desfalcada sem um partido que vê a democracia como meio para um fim: a supressão dela mesma e o controle hegemônico da sociedade civil. Assim não dá, Bucci. Vá advogar para o PT em outro lugar, por favor.

 

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O princípio de autotutela e a desocupação da sede da Secretaria de Educação do RJ

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Força policial foi utilizada para retirar estudantes que “ocupavam” a sede da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio, que fica no local chamado Santo Cristo. Infelizmente, a ação não pôde ser santa.  A situação não o permitia.

Invadida desde 5 de maio, o coração administrativo da educação fluminense teve a normalidade restabelecida com uso de força. É óbvio que tal conduta foi excessiva e o governador agiu de forma completamente absurda e desproporcional.

Errado!

Conhecido pelo nome pomposo de “Princípio de Autotutela da Administração”, esse mecanismo jurídico-social confere faculdade para governos agirem sem requerer ordem judicial para cada ato que pratiquem. É tema clássico e elementar no direito administrativo.

Outrossim, autotutela refere-se também ao poder da Administração de zelar pelos bens que integram seu patrimônio, sem a necessidade de título fornecido pelo Judiciário”, diz o Dicionário Jurídico Online.

Governos, via de regra, só são obrigados a se refugiar sob a razão do judiciário quando controvérsia, dúvida ou coisa que o valha, estão presentes na situação concreta com a qual o administrador se defronta. Não foi o caso.

Na noite anterior, havia sido acordado entre as partes (estudantes e Secretaria de Educação) que os jovens deixariam a sede, porém, segundo notícias, depois que a negociação se submeteu a algum sindicato (talvez dos professores), os militantes voltaram atrás. Estudantes manobrados por sindicatos? Nada de novo no front.

Com a invasão do centro nervoso da cúpula educacional do Estado, fica impraticável para a administração decidir a respeito da pasta, juntar estatísticas e ter tranquilidade para negociar. “Ocupar” escola é uma coisa; invadir o núcleo da administração educacional de Unidade da Federação é outra bem distinta.

Além do mais, o governo invocou, com acerto, o artigo 1.210 do Código Civil, lei que rege, entre outras, as relações de posse e propriedade no país. Tal dispositivo legal prevê, de alguma forma, uso de força própria para defesa da posse que foi turbada (incomodada) ou esbulhada (perdida).

Código Civil, art. 1.210, parágrafo primeiro:

“O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse”.

É alvo como neve que o gestor Pezão, no quesito finanças públicas, é deficitário e que as escolas estão à míngua. Pezão é um desastre. Deus guarde a saúde dele. Mas daí a querer trazer a desestabilização fortuita e sem motivo, sistêmica e partidária, como parece fazer esse movimento estudantil instrumentalizado e títere de ideólogos vermelhos, a distância é grande.

Princípio de autotutela e repulsa ao esbulhador. Dois mecanismos jurídicos previstos na ordem jurídica nacional, a priori bem utilizados pela Secretaria de Educação fluminense. Além do mais, a força de que se valeu a polícia parece que foi proporcional à situação concreta, como dispõe o Código Civil. Justiça foi feita.

 

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Vida de cientista: dá pra ser “normal” também?

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O que um blog que se dedica a temas relacionados à Política, Religião, Filosofia e Cotidiano tem a dizer sobre ciência e cientistas?

Bem, no quesito Filosofia, existe a possibilidade de se abordar a atividade científica sob olhar do método e do significado de sua prática. Porém, não é esse meu objetivo aqui.

Li reportagem numa revista desconhecida que achei digna de nota. É a revista “O Globo”, que circula como brinde aos domingos junto com o jornal “O Globo”. Na edição de 8/5/2016, o periódico trouxe matéria sobre o que a revista chamou de o lado B da vida de seis cientistas brasileiros de destaque, todos residentes e atuantes na Cidade Maravilhosa. Será que ainda se usa esse nome pro Rio?

O objetivo da matéria de capa – “Outro Olhar” – é apontar o aspecto pedestre da vida de homens e mulheres de ciência. Cientista também é “normal”?

Foi meu filho mais velho que me indicou a leitura. Gostei tanto que resolvi escrever a respeito. Observei aspectos “religiosos” na matéria e é deles que falo um pouquinho agora. Mas só vou dizer algo sobre dois dos cientistas listados.

A primeira dos seis é a bióloga Sandra Azevedo, que estuda cianobactérias e é especialista em assuntos de mar. Tenho medo de mar. Na cultura judaica bíblica, mar é perigoso e assustador e é portador de má notícia. Recomendo o novo filme sobre a velha Moby Dick (“No Coração do Mar”, EUA, 2015). Sandra coordena laboratório de pesquisa sobre as azulzinhas. No curso da entrevista, a doutora Sandra diz, em estilo de gozação, que tais seres são “o capeta em forma de organismo”, por causa da capacidade de sobrevivência tanto em desertos quanto em águas termais aquecidas a mais de 90 graus. Outro lado “religioso” dela, que em nada lembra brincadeira, é sua dedicação a pessoas – ajudou a minorar efeitos da dor lá na minha terra, PE, quando houve calamidade com água não tratada em São José do Egito e na chamada Tragédia da Hemodiálise. Foi tão calamitosa que ganhou nome próprio. Isso foi na querida Caruaru em 1996. Nas horas vagas, a doutora Sandra, ou melhor, a vovó Sandra, se dedica a preparar massas apetecíveis. É… Parece que dá pra ser cientista e “normal” ao mesmo tempo. Aliás, no prazer gustativo, ela não está só. Carlos Aragão a acompanha.

Físico teórico especialista em metamateriais, Aragão também é chegado à boa mesa. Aprecia estar com pessoas, guarnecido por comida e bebida bem preparadas. Ao contrário da área da física em que se tornou expert, Aragão gosta das coisas simples da vida. Vejo “normalidade” por aqui também. Se a Mecânica Quântica chega a níveis de abstração e enquadramento da realidade que atrai religiosos para perto de si, como Jean Guiton, a ponto de eu me arriscar a chamá-la de física espiritual, a física de metamateriais envolve “coisas em escala mínima que se comportam loucamente, mais que o normal no mundo quântico, onde tudo é louco”, diz o jornalista que assina a matéria. Isto é, Carlos Aragão mexe com física mais abstrata que a quântica. Talvez por isso ele não dispense estar sempre perto de gente e de iguarias que a vida dá.

Dos seis cientistas que a revista noticiou, achei que Sandra e Aragão formam os contrastes mais interessantes entre, de um lado, o cientista sisudo, de jaleco branco, imerso no laboratório com pipetas e microscópios e, de outro, o comum dos mortais do dia-a-dia. Quem tem essa revista e não leu a reportagem, vale à pena passar uma vista. Os seis cientistas mostram bem que dá sim, por incrível que pareça, para ser nerd e “normal” ao mesmo tempo. E que vida de cientista não é tão incomum quanto aparenta.